Beatrice ( Bia )
1
0EM PÓ, EM PAZ, EM DOR
Indo embora,
partindo a cada nota da minha mais sagrada partitura,
sou sonho embriagado por Bach,
um acorde perdido entre a eternidade e o silêncio.
Em pó, sob a sustentação de cada nota que chora sozinha,
eu me vou.
Em pó, em paz, em dor,
purificado pelo breve milagre do teu olhar.
A soturna penumbra se entrega às procelas,
e as tempestades já não sabem distinguir
a chuva das lágrimas.
Cada gota tua parece sustentar o que ainda resta de mim,
como se o meu corpo, antes de desaparecer,
precisasse apenas desse último gesto de ternura.
Eu me vou.
Pó.
Sombra triste.
E levo comigo o violino,
esse companheiro de madeira e silêncio,
que ainda guarda, entre suas cordas,
aquilo que não consegui dizer.
Ele também é sombra.
Sombra triste em pó,
fiel a mim até o último som.
E todo o meu ser caminha para essa escuridão,
devagar,
como uma nota que se afasta
até deixar de ser ouvida.
O quadro é negro.
Talvez triste.
Mas não é o pior.
Porque pior seria partir
sem ter encontrado, por um breve instante,
o teu olhar.
Sem ele,
tudo seria treva.
Tudo seria em vão.
E talvez seja essa a última verdade que me acompanha:
não importa quão escuro seja o caminho,
nem quão silenciosa seja a música depois da última nota.
Se, antes de partir,
eu ainda puder encontrar teus olhos,
levarei comigo alguma luz.
E então poderei desaparecer em paz —
não porque a dor tenha deixado de existir,
mas porque, por um instante,
ela terá sido iluminada por ti.
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