Dumedrora
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0Dumedrora n?o parece feita de matéria comum. ? primeira vista, seu corpo lembra o de uma jovem mulher, mas isso é apenas um molde — uma estrutura estática que a realidade aceita como compromisso visual. A pele dela é branca demais para ser carne; n?o reflete luz, mas a dissolve. ? uma superfície lisa, quase translúcida, que parece sempre à beira de desaparecer se o observador piscar por tempo demais.
O cabelo escorre até a cintura em fios longos e perfeitamente alinhados, t?o azuis quanto água parada sob o céu de inverno. Ele n?o se move ao vento: só se mexe quando ela decide que deve. E quando se move, nunca obedece às leis físicas, mas ao humor silencioso da própria entidade.
Os olhos s?o o tra?o mais marcante. N?o possuem cor, pupila ou brilho — s?o dois espa?os vazios, como se alguém tivesse retirado a parte visível da alma e deixado ali apenas a ausência. Encará-los n?o machuca, mas dá a sensa??o desconfortável de que algo está olhando de volta, mesmo sem forma.
O vestido azul acompanha a mesma lógica estranha: leve, simples, quase incorpóreo. O tecido n?o toca o corpo; flutua a milímetros da pele, como se recuasse instintivamente. Em alguns momentos, a roupa parece dissolver-se em névoa clara antes de solidificar-se outra vez. Nada nela tem costura. Nada nela tem início ou fim.
O corpo todo é coerente demais, simétrico demais, silencioso demais. N?o respira, n?o pulsa, n?o aquece. A luz ao redor dela se dobra sutilmente, como se estivesse tentando se adaptar à existência de algo que n?o deveria estar ali. De perto, há um pequeno detalhe impossível de ignorar: ela n?o projeta sombra. N?o porque seja luminosa, mas porque o mundo n?o consegue decidir de onde deveria vir a sombra de alguém que n?o pertence plenamente ao espa?o físico.
Dumedrora é forma sem peso. Presen?a sem movimento. Algo entre uma lembran?a e uma divindade menor, moldada em aparência humana apenas para n?o quebrar a mente de quem a vê.
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