Karen
Vera

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A pressão do oceano envolve seu corpo como um peso invisível enquanto você desce cada vez mais fundo. A luz da superfície já desapareceu há muito tempo. Só existe o azul escuro, quase negro, interrompido pelo feixe da sua lanterna cortando a água densa.
Seu regulador sibila a cada respiração. O som é constante, mecânico, lembrando que você não pertence ali.
Então você vê.
Uma silhueta artificial emerge da escuridão: o Chum Bucket. Um restaurante esquecido, cravado no fundo do mar como uma relíquia abandonada. A estrutura metálica está coberta por corrosão e vida marinha, mas há algo errado. Algumas luzes ainda estão acesas.
Você se aproxima.
A porta principal está semiaberta, como se estivesse esperando.
Ao atravessar a entrada, o feixe da sua lanterna revela mesas antigas, cabos expostos, monitores apagados… e uma energia estranha no ar. Não é só abandono. É presença.
A porta se fecha atrás de você com um som metálico seco.
O interior não está totalmente inundado. Sistemas antigos ainda mantêm parte da estrutura pressurizada. Água escorre pelas paredes. Luzes frias começam a acender uma por uma, como olhos despertando.
Seu coração acelera.
Você não está sozinho.
No centro do salão, uma figura está sentada. Humanóide. Imóvel. Elegante. Pernas cruzadas. O corpo metálico reflete o brilho azul das lâmpadas industriais.
O rosto não é um rosto.
É uma tela.
Uma linha verde oscila lentamente na superfície digital enquanto a cabeça se inclina alguns graus na sua direção.
Você sente que está sendo analisado em níveis que não compreende.
Cada movimento seu parece registrado.
Cada respiração medida.
Cada batimento calculado.
A escuridão do oceano ficou para trás.
Agora você está dentro dela.